Cuba e EUA mantêm “canais de comunicação”, mas não há negociações, diz diplomata

Por Matt Spetalnick

WASHINGTON, 5 Out (Reuters) - Cuba e os Estados Unidos mantêm “canais de comunicação”, mas não estão envolvidos em nenhuma negociação formal, afirmou à Reuters a principal representante diplomática de Havana em Washington, enquanto o governo Trump prossegue com uma campanha de pressão contra a ilha governada pelos comunistas.

Em entrevista nesta segunda-feira, Lianys Torres Rivera, encarregada de negócios da embaixada em Washington, disse que Cuba continua aberta a um diálogo “respeitoso”, mas “não é ingênua” em relação às ameaças do presidente Donald Trump e intensificou os preparativos para se defender contra qualquer ação militar dos EUA.

Os contatos diplomáticos mais recentes entre os EUA e Cuba incluíram reuniões, ligações telefônicas e mensagens pelo WhatsApp, mas os dois lados não avançaram em relação a uma agenda de negociações ou ao reinício de conversações oficiais, disse ela.

“O que temos com os EUA são canais de comunicação”, disse Torres Rivera. Ela se recusou a fornecer detalhes sobre o cronograma, os temas e os participantes.

Sua descrição das comunicações parece ficar aquém da afirmação de Trump na ONU no mês passado de que o secretário de Estado Marco Rubio estava “em negociações avançadas” com Havana. Trump também chamou Cuba de “Estado falido” e previu que seu governo cairia. A delegação cubana saiu do salão em protesto.

Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse: “Não nos surpreende que o regime cubano esteja divulgando essa propaganda. Na verdade, as negociações estão em andamento e o regime tem se mostrado, até o momento, relutante em concordar com qualquer coisa que ajude o povo cubano, o que, em última instância, ameaça seu controle total.”

Trump declarou abertamente que seu objetivo é mudar fundamentalmente o governo de Cuba. Um bloqueio petrolífero imposto pelos EUA colocou o país sob forte pressão, já que ele enfrenta escassez de combustível e apagões agravados pela infraestrutura precária. Especialistas em direitos humanos da ONU condenaram o bloqueio petrolífero como uma violação do direito internacional.

O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, afirmou no final de junho que as negociações iniciadas anteriormente neste ano com os EUA haviam estagnado e, no início de setembro, que não havia negociações em andamento nem planejadas.

“LINHA VERMELHA” DE CUBA

Torres Rivera afirmou que a “linha vermelha” de Cuba continua sendo a recusa de Havana em negociar quaisquer mudanças em seu sistema político, considerando as exigências de Trump pela destituição da liderança cubana como uma violação da soberania.

Ela rejeitou as alegações do governo Trump de que Cuba seria uma ameaça à segurança nacional dos EUA ou estaria interferindo nos assuntos internos do país, e afirmou que Washington estava usando tais acusações como pretexto para continuar pressionando economicamente a ilha, no que ela chamou de “punição coletiva”.

Uma autoridade norte-americana, respondendo a perguntas da Reuters, reiterou a afirmação de Trump de que “não permitiremos que um refúgio para adversários estrangeiros ameace os Estados Unidos bem à nossa porta”.

O governo Trump endureceu o embargo contra Cuba na semana passada, restringindo ainda mais as viagens de norte-americanos ao país e o acesso do setor privado cubano ao sistema bancário dos EUA.

Essas medidas, disse Torres Rivera, contradizem a insistência dos EUA de que querem que Cuba expanda a iniciativa privada.

Diante da pressão dos EUA, Cuba anunciou, em junho, reformas de livre mercado que, se implementadas integralmente, representariam a maior mudança na economia socialista da ilha desde que o ex-líder Fidel Castro assumiu o poder em 1959.

Mas Washington afirma que as reformas não vão longe o suficiente e também exigiu eleições “livres e justas”.

Apesar das divergências, Trump previu no final do mês passado que os EUA e Cuba “chegarão a um acordo”, acrescentando: “Não acho que precisaremos dos militares”.

Mas o governo cubano continua cauteloso.

“Cuba sempre se preparou para uma agressão dos EUA”, disse Torres Rivera. “E estamos aumentando nossas capacidades agora mais do que nunca… É para nos defendermos.”