Rastreadores fitness podem causar ansiedade e transtornos alimentares

Relógios inteligentes, aplicativos e outros dispositivos vestíveis se tornaram ferramentas comuns para quem deseja acompanhar a própria atividade física. Eles podem ajudar a criar hábitos, incentivar mais movimento e mostrar padrões de comportamento ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, recursos como notificações, metas, sequências, medalhas e pontuações podem influenciar a maneira como as pessoas enxergam o exercício. Para alguns usuários, o monitoramento pode acabar provocando ansiedade, culpa, vergonha e até comportamentos alimentares prejudiciais.

Pesquisas sobre o tema apontam cinco fatores que ajudam a explicar por que o acompanhamento constante da atividade física pode se tornar problemático.
1. A obsessão pelos 10 mil passos

A conhecida meta de 10 mil passos por dia não surgiu de uma recomendação científica. O número teve origem em uma campanha de marketing no Japão, na década de 1960, mas acabou se tornando associado à ideia de uma rotina saudável.

Embora estudos indiquem benefícios importantes mesmo com uma quantidade menor de passos, a meta de 10 mil continua sendo amplamente utilizada pelos dispositivos.

O problema é que uma única meta não serve para todas as pessoas. Além disso, os aparelhos podem registrar melhor atividades que envolvem caminhada e ter mais dificuldade para representar exercícios como musculação, natação, ciclismo, pilates, mobilidade ou reabilitação.

Com isso, atividades importantes para a saúde podem parecer menos relevantes simplesmente porque não são facilmente transformadas em números.
2. Quando o exercício deixa de ser prazeroso

O acompanhamento constante também pode fazer com que a atividade física deixe de ser uma experiência agradável e passe a ser encarada como uma obrigação.

Quando a pessoa concentra sua atenção em atingir determinada meta e falha repetidamente, pode surgir uma sensação de fracasso. Com o tempo, isso pode reduzir a motivação e até levar ao abandono tanto do dispositivo quanto da própria atividade física.

O prazer e a motivação pessoal são importantes para transformar o exercício em um hábito duradouro.
3. A ideia de que “quanto mais, melhor”

Muitos dispositivos apresentam o aumento dos números como sinônimo de sucesso: mais passos, mais calorias gastas, mais minutos de atividade.

Essa lógica, porém, nem sempre considera o contexto individual. Uma pessoa pode estar se recuperando de uma doença, enfrentando uma lesão, dormindo mal ou simplesmente começando a praticar exercícios.

Nessas situações, seguir cegamente as recomendações de um dispositivo pode fazer com que o usuário ultrapasse seus próprios limites.

O aparelho fornece dados, mas nem sempre consegue interpretar o que está acontecendo com o corpo.
4. Não existe um usuário padrão

Outro problema está no próprio desenvolvimento desses dispositivos. Muitos são projetados pensando em um usuário considerado “padrão”, embora as pessoas tenham corpos, necessidades, objetivos e condições muito diferentes.

Pessoas com deficiência, mulheres grávidas, idosos, iniciantes e indivíduos em recuperação, por exemplo, podem ter necessidades completamente diferentes das consideradas pelas configurações padrão.

Alguns recursos também podem reforçar a ideia de que saúde está necessariamente ligada à perda de peso ou a determinados padrões corporais, o que pode contribuir para exercícios excessivos ou restrições alimentares em pessoas vulneráveis.
5. A culpa acaba recaindo sobre o usuário

Os rastreadores podem transmitir a ideia de que a falta de atividade é principalmente uma questão de força de vontade. Entretanto, a possibilidade de se exercitar também depende de fatores como tempo disponível, dinheiro, segurança das ruas, responsabilidades familiares, deficiência e acesso a espaços adequados para atividade física.

Quando essas circunstâncias impedem que alguém alcance uma determinada meta, o resultado pode ser interpretado pelo próprio usuário como fracasso pessoal.
Tecnologia deve ser ferramenta, não regra

Os dispositivos de monitoramento podem ser úteis, mas os números não devem substituir a percepção do próprio corpo. Um relógio pode mostrar o que conseguiu medir, mas não necessariamente dizer do que a pessoa precisa naquele dia.

Uma utilização mais saudável da tecnologia passa por tratar os dados como informação, e não como uma ordem. Metas mais individualizadas, maior valorização de atividades que não envolvem passos e atenção ao descanso e à recuperação poderiam tornar esses recursos mais adequados a diferentes pessoas.

O objetivo não precisa ser abandonar os relógios e aplicativos, mas evitar que uma pontuação determine se uma atividade “contou” ou se alguém foi suficientemente ativo. A tecnologia pode ajudar a compreender os hábitos — desde que não passe a controlar a relação da pessoa com o próprio corpo e com o exercício.

Fonte: Jornal O Sul