Filme “A Odisseia” reacende obsessão por fidelidade histórica


O primeiro trailer de “A Odisseia”, novo filme dirigido por Christopher Nolan, já provocou uma onda de críticas nas redes sociais. As reações envolveram desde o uso de uma linguagem considerada moderna demais até escolhas de elenco, figurinos e a ausência de atores gregos na produção.

Uma das cenas que mais gerou comentários foi a participação de Telêmaco, interpretado por Tom Holland, ao chamar Odisseu, seu pai, de “dad”. O termo foi visto por alguns internautas como inadequado para uma história ambientada na Grécia Antiga. Também houve críticas ao processo de escolha do elenco, com debates sobre alterações de etnia de personagens, além de questionamentos sobre as armaduras e o figurino de Atena.

Com orçamento estimado em US$ 250 milhões e um elenco de grandes nomes, o filme reacendeu uma discussão antiga sobre adaptações cinematográficas: até que ponto uma obra baseada em um clássico literário ou em fatos históricos precisa ser fiel ao material original para ser considerada uma representação legítima?

Para o historiador Henrique Caldeira, doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a própria trajetória da “Odisseia” mostra que a obra sempre passou por transformações. Segundo ele, o poema sobrevive há cerca de 2,5 mil anos justamente porque foi reinterpretado em diferentes períodos e contextos.

A adaptação de uma obra antiga exige novas formas de leitura, já que o público atual não vive no mesmo contexto histórico de quem originalmente ouviu os versos de Homero. A ideia de beleza, por exemplo, muda conforme a época, assim como a forma de representar personagens e acontecimentos.

Nem mesmo a existência de Homero é uma certeza histórica. Alguns pesquisadores acreditam que ele pode não ter sido uma única pessoa, mas uma tradição ou escola de pensamento responsável por reunir e transmitir histórias da cultura grega. A Guerra de Troia também é considerada uma narrativa mitológica inspirada em possíveis conflitos reais da Idade do Bronze, mas sem comprovação de que tenha ocorrido exatamente como descrita nos poemas.

Outro ponto é que muitas histórias associadas à “Odisseia” não aparecem detalhadamente no texto original. O famoso cavalo de Troia, por exemplo, recebe apenas breves menções nos poemas atribuídos a Homero. Os relatos mais completos surgiram posteriormente, especialmente na “Eneida”, escrita pelo poeta romano Virgílio entre 29 a.C. e 19 a.C.

Segundo Caldeira, Homero escrevia para um público que já conhecia aquelas histórias, por isso não precisava explicar todos os detalhes. Com o passar dos séculos, autores posteriores passaram a ampliar e reinterpretar esses elementos para novos públicos.

A própria recepção da obra também mudou ao longo da história. Embora hoje seja considerada uma das maiores obras da literatura mundial, a “Odisseia” já foi questionada. Nos diálogos de Platão, Sócrates critica a influência do poema na formação dos cidadãos por apresentar deuses com características humanas e incluir criaturas fantásticas como sereias, ciclopes e feiticeiras.

Para o historiador, manter os elementos mitológicos é essencial em uma adaptação da obra. Retirar os deuses e criaturas fantásticas seria reduzir justamente uma das características centrais da narrativa de Odisseu. “Tratar uma narrativa mitológica sem esses elementos seria como fazer um filme bíblico sem Deus”, afirmou.

Fonte: Jornal O Sul