Perda de peso: caneta emagrecedora não faz mágica. É preciso aliar dieta e atividade física, alerta especialista
Brasil afora, o cenário vai mudar. Com a previsível massificação do uso de canetas para emagrecer e seus correlatos, mais gente magra será vista nas ruas. Mas a obesidade, uma das maiores inimigas da saúde pública global, continuará sem prevenção e cura, adverte um dos maiores especialistas do País, Lício Velloso, professor titular e coordenador do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), membro da Academia Brasileira de Ciências. Velloso está à frente da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Obesidade, que reunirá este ano especialistas brasileiros e estrangeiros para formar profissionais com a vanguarda do conhecimento sobre a doença. Segundo ele, a caneta emagrecedora não faz mágica. É preciso aliar dieta e atividade física.
– As canetas emagrecedoras são a solução para a obesidade? “Elas são uma revolução, mas não são a solução. Pertencem a uma classe de remédios (semaglutida, que mimetiza o hormônio intestinal GLP-1; e tirzepatida, que associa também o análogo do hormônio GIP) que constitui uma revolução terapêutica, mas que não previne, cura e muito menos elimina a doença da obesidade. Esta continuará a crescer no mundo porque as condições que a causam persistem e o problema está longe de ser resolvido.”
Por quê? “A caneta é uma solução no nível individual, para quem pode pagar, usa da forma certa, com introdução lenta e gradual; e se compromete com o tratamento por toda a vida. Mas não cura a obesidade nem resolve o problema de saúde pública, o surgimento de novos casos.”
– É como enxugar gelo em termos de saúde pública? Por quê? “Porque não eliminam as causas primárias da doença. As pessoas engordam porque vivemos num ambiente feito para engordar, baseado em alimentação com ultraprocessados altamente calóricos e pouca atividade física. Essas drogas atuam controlando a fome e a saciedade. Mas se a pessoa para, também cessa o efeito. O ganho de peso é controlado, mas não curado.”
– Como será o impacto de uma massificação das canetas? “A obesidade é uma doença visível. Então, o aumento do uso vai mudar literalmente a paisagem. Veremos muito mais gente magra e também teremos menos casos de doenças associadas à obesidade, como diabetes e doenças cardiovasculares. Teremos menos hipertensos. Isso tudo é muito positivo. Mas não será para todos.”
– Por quê? “Porque as drogas poderão ter o custo reduzido, mas não serão baratas. O benefício será para as faixas médias de renda. E friso: a paisagem mudará, mas a doença permanecerá. A obesidade é uma doença crônica, associada a alterações metabólicas, afeta o corpo todo. Ela estará sob controle, mas se abrirmos a porta, voltará.”
– O Vigitel, levantamento do Ministério da Saúde, mostrou que 62,6% dos brasileiros adultos estão acima do peso. Toda essa gente é elegível para usar canetas emagrecedoras? “Sim. Mas nem todo mundo terá dinheiro para pagar. E a faixa de menor renda é justamente a que mais precisa, a com a maior taxa de obesidade e sobrepeso. Além disso, nem o SUS nem qualquer outro sistema público do mundo tem condições de arcar com o custo universal. Por outro lado, a obesidade segue a aumentar porque as condições que a provocam continuam a existir.”
– Por que tanta gente está acima do peso? “A sociedade contemporânea – e não apenas no Brasil – criou o ambiente perfeito para ganhar peso, embora condene quem engorde, como se fosse opção. Hoje, o ambiente faz com que se acumule mais calorias e se gaste menos. Isso é cruel. O ser humano evoluiu para acumular açúcar e gordura porque esses elementos foram escassos pela maior parte de nossa história natural. Nosso metabolismo é feito para conservar energia. O que não é normal, não é saudável é o ambiente em que vivemos, que propicia o exagero. Se tornou muito fácil acumular porque a comida disponível é mais calórica, engorda mais. E o excesso leva à doença, isto é, à obesidade.”
– O que mudou nas últimas décadas? “Antes era muito difícil acumular gordura. A comida com alta densidade calórica (mais açúcar e gordura) era menos acessível e a atividade física, regular. Mas nas últimas décadas a comida se tornou preponderantemente processada e ultraprocessada, com quantidades absurdas de açúcar, gordura e sal, elementos que permitem que seja mais barata, saborosa e atraente. A atividade física hoje é um luxo para a maioria das pessoas, sem tempo e dinheiro para isso. Não se anda mais, se passa o dia sentado, seja no transporte, no lazer ou no trabalho. Então, é esperado que as pessoas engordem. Existem várias formas de obesidade e para quem tem certas condições genéticas o problema é ainda maior, são os casos de obesidade severa.” As informações são do jornal O Globo.
Fonte Jornal O Sul.
