O impacto negativo do uso diário do celular por crianças


Uma pesquisa inédita da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) acendeu um alerta sobre o impacto do uso frequente de dispositivos digitais na primeira infância. O estudo, que avaliou cerca de 25 mil crianças de 5 anos em nove países — incluindo o Brasil — apontou que o uso diário de celulares, tablets e outros aparelhos está associado a um desenvolvimento inferior em habilidades fundamentais como linguagem, matemática e aspectos socioemocionais.

No Brasil, a pesquisa foi realizada nos estados de São Paulo, Ceará e Pará e marcou a primeira vez em que crianças da educação infantil brasileiras passaram por uma avaliação direta desse tipo. Além de questionários aplicados a pais e professores, as crianças participaram de atividades em tablets que mediam competências relacionadas à literacia — como interesse por livros, vocabulário, reconhecimento de letras e capacidade de compreender histórias —, numeracia, que envolve conceitos iniciais de matemática, além de habilidades socioemocionais e funções executivas, como memória, atenção e controle dos impulsos.

Os resultados mostraram que as crianças brasileiras alcançaram desempenho semelhante à média internacional em literacia, mas ficaram abaixo dos demais países em numeracia. O ponto que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a relação entre o uso diário de telas e o desempenho das crianças. Entre aquelas que utilizavam dispositivos digitais todos os dias, houve uma redução média de 10 pontos em literacia e de 11 pontos em numeracia em comparação às demais crianças. Também foram observados efeitos negativos na memória de trabalho e em aspectos ligados ao desenvolvimento socioemocional.

Os pesquisadores destacam, porém, que os resultados não significam necessariamente que as telas sejam a causa direta do menor desempenho. A principal preocupação é que o excesso de tempo diante dos dispositivos possa substituir atividades consideradas essenciais para o desenvolvimento infantil, como brincar, praticar atividades físicas, conversar com adultos, ouvir histórias e interagir com outras crianças.

A pesquisa também revelou que mais da metade das crianças brasileiras participantes, cerca de 50,4%, utiliza dispositivos digitais diariamente — índice acima da média internacional de 46%. Apenas 11,4% das crianças no Brasil disseram nunca ou quase nunca utilizar telas. Em países como a Holanda, por exemplo, o uso diário atinge aproximadamente 24%.

Especialistas lembram que a primeira infância é considerada uma fase decisiva para o desenvolvimento cerebral e emocional. É nesse período que são construídas habilidades que podem influenciar o aprendizado, a saúde e a qualidade de vida ao longo dos anos. Por isso, o estudo reforça a importância de equilibrar o uso da tecnologia com experiências presenciais, brincadeiras e interações sociais que ajudam no desenvolvimento integral das crianças.

Fonte: Jornal O Sul