“O corpo e o cérebro estão mais conectados do que se imagina”, diz neurocirurgião e pesquisador
No entanto, sua ação vai muito além disso. O neurocirurgião americano Kevin J. Tracey, que também é pesquisador, descobriu que o cérebro e o sistema imunológico estão intimamente ligados pelo nervo vago. Esse achado abriu um grande campo de pesquisa e possibilidade de novos tratamentos, por meio da ativação do nervo vago para doenças inflamatórias, como artrite reumatoide, câncer, doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade e neurodegeneraçãoo, como Alzheimer e Parkinson.
Nos últimos anos, começaram a surgir milhares de dicas nas redes sociais sobre como estimular o nervo vago para obter benefícios como prevenir doenças, aumentar o bem-estar e melhorar a saúde mental. Diante desse aumento e também de muita desinformação, Tracey decidiu escrever um livro inteiro sobre esse nervo tão importante para o corpo humano e, muitas vezes, mal compreendido. Chamado “O nervo vago: as descobertas sobre o nervo que regula sistemas vitais do nosso corpo e pode curar doenças crônicas e autoimunes”, a obra foi lançada recentemente no país pela editora Sextante.
Em entrevista ao jornal O Globo, Tracey, que é referência mundial nas áreas de inflamação e medicina bioeletrônica e presidente e professor do Instituto Feinstein, nos EUA, fala sobre a importância do nervo vago para a nossa saúde e explica como podemos ativá-lo por meio de hábitos e práticas simples do dia a dia para melhorar nossa saúde em geral.
– Por que você decidiu escrever um livro sobre o nervo vago? “Escrevi este livro porque existem bilhões de publicações na internet sobre o nervo vago e acho muitas delas profundamente confusas, algumas erradas e outras interessantes, mas não comprovadas. Então, tentei reunir essas informações para que as pessoas pudessem concordar sobre o que sabemos, o que não sabemos, o que está errado, o que está certo e o que é interessante, mas que deveríamos estudar mais a fundo.”
– Por que o nervo vago é tão importante para a nossa saúde? “Porque é um importante canal de informação, um caminho pelo qual o corpo comunica ao cérebro o que está acontecendo no corpo e o cérebro comunica ao corpo o que fazer a respeito. Os sinais que viajam pelo nervo vago – são 100 mil nervos de cada lado do pescoço, totalizando 200 mil nervos vagos – foram aprimorados por milhões de anos de evolução para desempenhar uma função específica, transmitir uma mensagem específica com um propósito específico e, em conjunto, essas funções produzem harmonia. É como 200 mil cordas de violino e, quando todas tocam em perfeita harmonia, o resultado é uma bela sinfonia, que é a homeostase, o equilíbrio da função de todos os órgãos. Embora médicos e cientistas estudem o nervo vago há 2 mil anos ou mais, só agora, com ferramentas modernas, estamos criando mapas precisos de todas essas fibras. E esses novos mapas nos levaram a entender que essas fibras não controlam apenas os órgãos que conhecemos, como também controlam a inflamação, o que abriu um novo mundo de oportunidades.”
– Em seu livro, você escreve que o nervo vago está muito próximo do sistema imunológico. O que muda quando começamos a olhar para o corpo como um sistema integrado entre o cérebro e o sistema imunológico? “Muda muita coisa. Por décadas, os estudiosos do cérebro e da neurociência não estudavam imunologia, e vice-versa. Mas hoje, esses campos estão convergindo na área da neuroimunologia e na medicina bioeletrônica, porque, no fundo, o corpo e o cérebro estão conectados mais do que se imagina. Platão já dizia isso: se você quer curar a alma, cure o corpo, e se quer curar o corpo, cure a alma. Essa ideia, todo mundo conhece. Os universitários, estudam, ficam exaustos, fazem as provas e adoecem depois porque baixaram a guarda. Todos sabemos que existe uma relação entre o sistema nervoso e o sistema imunológico. Mas não podíamos fazer nada a respeito porque ninguém entendia como funcionava. Estudando o nervo vago, descobrimos uma nova maneira de encarar a questão. Por exemplo, descobrimos que os sinais do nervo vago funcionam como os freios de um carro, impedindo que ele desça a ladeira em alta velocidade. Essa ‘linha de freio’, pode reduzir a inflamação. Pensando dessa forma, podemos realizar experimentos concretos em laboratório, estudar os sinais nas fibras do nervo vago e aprender como os sinais elétricos são convertidos em sinais químicos, e como esses sinais químicos inibem a inflamação. Isso é interessante.” As informações são do jornal O Globo.
Fonte: Jornal O Sul
