Após um ano de papado, Leão 14 encontra sua "voz de clarim"
Por Joshua McElwee
CIDADE DO VATICANO, 6 Mai (Reuters) - O papa Leão 14 marca seu primeiro ano liderando a Igreja Católica na sexta-feira com maior visibilidade pública e uma agenda mais intensa, tendo se tornado mais enfático no cenário mundial e atraído a ira do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O primeiro papa nascido nos EUA, que denunciou duramente a guerra e o despotismo em uma recente turnê a quatro nações na África, deve lançar seu primeiro documento doutrinário mais profundo este mês e está se preparando para uma viagem de uma semana à Espanha em junho.
Leão, que manteve um perfil relativamente discreto em seus primeiros 10 meses como papa antes de atrair ataques de Trump após criticar a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, também fará cinco viagens na Itália até julho.
À medida que o ritmo aumenta, é provável que o papa mantenha o novo tom enérgico que estreou na África, disseram especialistas, visto que o Vaticano está cada vez mais preocupado com os rumos da liderança global.
"O papa Leão tornou-se a voz de clarim singular em nossa comunidade global sobre a necessidade de paz e salvaguarda da dignidade humana", disse à Reuters o cardeal Robert McElroy, de Washington, um aliado próximo do papa.
"(Leão) tem demonstrado uma disposição cada vez maior de aplicar o Evangelho com especificidade às violações gritantes dos direitos humanos que nos cercam", disse McElroy, referindo-se aos capítulos bíblicos que descrevem a vida de Jesus.
O papa deve se reunir na quinta-feira com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em seu primeiro encontro pessoal conhecido com um membro do gabinete de Trump em quase um ano.
Rubio espera uma "conversa franca" com Leão para discutir as políticas do governo Trump, disse o embaixador dos EUA na Santa Sé na terça-feira, quando Trump criticou novamente o papa no programa de rádio de direita de Hugh Hewitt.
COMEÇOU O PAPADO COMO UMA FIGURA QUASE DESCONHECIDA
Leão, o ex-cardeal Robert Prevost, foi escolhido pelos cardeais do mundo em 8 de maio de 2025 para liderar a Igreja de 1,4 bilhão de membros após um conclave secreto de dois dias na Capela Sistina do Vaticano.
Ele sucedeu o papa Francisco, que, em um mandato de 12 anos, buscou, em grande parte, abrir a instituição, muitas vezes inflexível, para o mundo moderno.
Prevost, que passou décadas como missionário e bispo no Peru antes de se tornar uma autoridade sênior do Vaticano em 2023, era um apoiador discreto do papado de Francisco, mas um relativo desconhecido no cenário mundial. Ele estava em algumas listas de possíveis novos papas, mas não era visto como um dos principais candidatos.
Em seus primeiros meses, Leão evitou, em grande parte, questões polêmicas. Mas ele começou a criticar as políticas linha-dura de imigração de Trump em setembro, atraindo a reação dos católicos conservadores dos EUA.
Depois que ele criticou a guerra no Irã, Trump o bombardeou com insultos nas redes sociais, chamando-o de "fraco" e "terrível".
Em sua viagem de 10 dias à África em abril, o papa alertou que os caprichos dos mais ricos do mundo ameaçam a paz, condenou as violações do direito internacional por potências globais "neocoloniais" e disse que o mundo estava "sendo devastado por um punhado de tiranos".
Mais tarde, Leão esclareceu aos repórteres que os discursos para a turnê foram escritos semanas antes da viagem e não visavam diretamente Trump.
VISITANDO LAMPEDUSA, MAS NÃO OS EUA
Leão passará seu primeiro aniversário visitando as cidades italianas de Pompeia e Nápoles, cerca de 250 km ao sul de Roma, onde prestará homenagem em um santuário católico e liderará vários eventos.
A viagem é a primeira de cinco dentro da Itália, culminando em 4 de julho com uma visita a Lampedusa, uma ilha ao sul da Sicília, conhecida ultimamente como o primeiro porto de escala para migrantes desesperados que fazem a perigosa viagem do norte da África para a Europa.
A escolha de visitar a ilha no dia em que os EUA comemoram o 250º aniversário de sua independência chamou a atenção, em um momento em que o governo Trump diz que a Europa enfrenta um "apagamento civilizacional" por permitir a imigração. A visita foi anunciada em fevereiro, logo depois que o Vaticano disse que Leão não viajaria para seu país de origem este ano.
O cardeal Blase Cupich, de Chicago, disse à CBS News em abril que, ao ir à ilha, o papa está "enviando uma mensagem de que sua principal prioridade no momento é estar com aqueles que estão abatidos e marginalizados".
O Vaticano não anunciou a data de publicação do primeiro documento doutrinário aprofundado do papa, conhecido como encíclica, mas espera-se que seja publicado antes do final de maio.
Espera-se que o texto aborde uma série de desafios éticos que o mundo enfrenta, incluindo o crescimento da inteligência artificial. O papa provavelmente também falará sobre os conflitos em andamento no mundo e sua liderança.
David Gibson, especialista em Vaticano e acadêmico da Fordham University, disse que Leão abordará os valores universais e não apenas Trump ou qualquer outro líder específico.
"Se um líder em particular se sentir atacado pelas palavras de Leão, talvez esse seja o problema dele e não do papa", disse Gibson.