Teranóstica: abordagem que rastreia e ataca câncer com radiação direto na célula e testada no Brasil


Uma pesquisa conduzida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) investiga o uso da abordagem teranóstica no combate ao câncer — estratégia que integra diagnóstico e tratamento em um único processo por meio de radiofármacos, medicamentos que contêm elementos radioativos.

A técnica permite identificar tumores com exames de imagem e, na sequência, direcionar radiação em doses muito baixas diretamente às células cancerígenas. O objetivo é oferecer um tratamento mais preciso, personalizado e com menor incidência de efeitos adversos.

Ainda em fase de investigação acadêmica e sem resultados publicados, o estudo é desenvolvido pelo Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera), sediado na Unicamp. Segundo os pesquisadores, a abordagem já foi aplicada em ao menos 100 pacientes, incluindo casos oncológicos avançados de diferentes tipos.

Para ampliar o projeto, o grupo firmou, neste ano, uma parceria com o Centro Uruguaio de Imagenologia Molecular (Cudim). A cooperação prevê intercâmbio de pesquisadores, compartilhamento de conhecimento e insumos, além do desenvolvimento conjunto de estudos.

Coordenador da iniciativa, o professor Carmino Antonio de Souza, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), afirma que o foco atual é a produção de conhecimento científico e o avanço de novas estratégias terapêuticas. “A colaboração entre os dois centros busca ampliar a compreensão da técnica e suas possibilidades clínicas”, explica.

A abordagem teranóstica utiliza princípios da medicina nuclear. Inicialmente, é injetada na corrente sanguínea uma substância capaz de emitir sinais detectáveis em exames, como o Flúor-18, direcionada a alvos específicos do tumor. No câncer de próstata, por exemplo, o composto se liga à proteína PSMA.

Após a administração, o paciente realiza exames como PET ou SPECT para verificar se houve absorção do material pelas células tumorais. Caso isso ocorra, indica-se a etapa terapêutica, na qual outro radiofármaco é aplicado, liberando radiação diretamente no local afetado.

Esse processo permite atacar as células cancerígenas de forma mais localizada, contribuindo para a redução do tumor e de sintomas, como a dor, com menor impacto sobre tecidos saudáveis.

“Teranóstica resulta da junção entre diagnóstico e terapia, dentro da medicina personalizada. Utilizamos radiofármacos para identificar a localização do tumor e, posteriormente, agir diretamente sobre ele, danificando o DNA das células cancerígenas”, detalha Carmino.

A técnica é considerada inovadora por funcionar como uma espécie de radioterapia interna, com baixa toxicidade. O protocolo prevê, em geral, de quatro a seis aplicações, com intervalos médios de seis semanas.

Embora não seja totalmente inédita — já que guarda semelhanças com a iodoterapia usada no tratamento de câncer de tireoide —, a abordagem se diferencia pela maior precisão e potencial de personalização. Em comparação com métodos tradicionais, apresenta vantagens relevantes:

• a quimioterapia atua em todo o organismo e pode afetar tecidos saudáveis, gerando efeitos adversos significativos;
• a radioterapia externa é mais direcionada, mas ainda pode atingir células não tumorais;
• a teranóstica atua diretamente nas células doentes, preservando estruturas saudáveis.

Segundo o coordenador, a pesquisa é de caráter translacional, envolvendo diferentes etapas conduzidas simultaneamente no ambiente acadêmico. Os estudos são realizados sob protocolos controlados e com aprovação de comitês de ética, incluindo testes em pacientes, mas ainda não integram processos regulatórios para aprovação como medicamento.

Neste momento, não há previsão de submissão à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). De acordo com Carmino, o objetivo atual não é desenvolver um produto comercial, mas aprofundar o entendimento da técnica. A eventual submissão poderá ocorrer futuramente, caso algum composto avance para etapas industriais e obtenha patente.

O projeto reúne uma equipe multidisciplinar, com oito pesquisadores principais, mais de 30 colaboradores e dezenas de estudantes, desde a iniciação científica até o pós-doutorado. As pesquisas envolvem áreas como química, física, biologia, farmacologia e medicina, com participação também de instituições como a Universidade de São Paulo, em São Carlos, e a Santa Casa de São Paulo.

“O desenvolvimento científico não segue uma linha única e contínua. As etapas acontecem de forma paralela e exigem tempo. Não há um resultado imediato para aplicação na população, mas um processo gradual de construção do conhecimento”, conclui o pesquisador.

Fonte: Jornal O Sul