Redes sociais desafiam o bem-estar de jovens, segundo relatório global que avalia felicidade


Divulgado no último dia 19, o World Happiness Report 2026 trouxe o Brasil na 32ª posição. O ranking, publicado pelo Centro de Pesquisa de Bem-Estar da Universidade de Oxford, mostrou a pontuação de 6,634 na avaliação média da qualidade de vida no País.

Comparado aos países da América Latina, o Brasil figura na 5ª posição, atrás apenas de Costa Rica, México, Belize e Uruguai. Já no topo do ranking geral está a Finlândia, pelo nono ano seguido, com um total de 7,764 pontos, seguida da Islândia e Dinamarca.

Na edição de 2026, o relatório avaliou mais de 140 países e destacou o uso das redes sociais e sua influência na percepção de satisfação com a vida, principalmente entre os adolescentes.

Para o psiquiatra Luiz Zoldan, gerente da unidade de Saúde Mental do Einstein, a exposição contínua a conteúdos idealizados traz maiores impactos nessa parcela da população, pois favorece comparações e pode afetar diretamente a autoestima.

O relatório, que avalia o bem-estar em uma escala de zero a dez, tem o índice baseado em seis fatores. Eles são: nível de renda, saúde, apoio social, liberdade para tomar decisões, generosidade e percepção de corrupção.

Embora mais países tenham registrado melhora na satisfação quando se comparam os períodos (2006-2010 e 2023-2025), nações ocidentais de alta renda vêm apresentando queda no índice, sobretudo entre os mais jovens.

Em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, por exemplo, houve uma redução na avaliação da qualidade de vida entre pessoas com menos de 25 anos. Já outras regiões, como a América Latina, mantiveram ou até ampliaram seus níveis de bem-estar no mesmo período.

Para Zoldan, o dado reforça que os contextos social e cultural influenciam diretamente a percepção de felicidade. “O bem-estar não depende só de fatores individuais. Ele está muito ligado à qualidade das relações e ao ambiente em que a pessoa está inserida”, avalia.

Esse cenário aparece também em outros levantamentos, como Ipsos Happiness Report 2026, onde o Brasil ficou entre os sete países com maior proporção de pessoas que se declaram felizes, apesar de desafios econômicos e sociais.

“Uma questão bastante prevalente nas pesquisas de felicidade e bem-estar é justamente o peso dos laços sociais e de apoio, especialmente da família”, explica Miriam.

Segundo o relatório, a forma de uso das redes sociais tem um peso importante quando se fala na relação entre essas plataformas e o bem-estar. Atividades digitais voltadas à comunicação, ao aprendizado e à troca de informações aparecem associadas a níveis mais altos de satisfação.

Já o uso voltado ao consumo de conteúdo, entretenimento e navegação sem objetivo definido tende a estar ligado a piores avaliações de bem-estar.

“Existe um uso mais ativo, de troca, e um uso mais passivo, de consumo”, diferencia Miriam. No segundo caso, a professora da PUC-SP diz que a tendência é gerar mais comparação e menos sensação de pertencimento.

Na América Latina, o uso intensivo de redes sociais entre adolescentes é o mais alto do mundo: 24,2% passam cinco horas ou mais por dia conectados.

Mesmo em contextos onde os níveis de bem-estar se mantiveram ou aumentaram, como é o caso da América Latina, há ainda vulnerabilidades específicas.

Entre meninas, por exemplo, o impacto aparece de forma mais evidente: 37% delas dizem ver conteúdos que prejudicam a percepção do próprio corpo, índice que está acima dos 26% observados na população geral.

Para Miriam Strelhow, esse recorte de gênero é bastante relevante. “As meninas são socialmente mais expostas a padrões estéticos e de comportamento. As redes intensificam isso com uma lógica de comparação constante e, muitas vezes, inalcançável”, diz.

Ela acrescenta que o impacto vai além da autoestima. “Estamos falando de construção de identidade. Quando essa construção acontece sob pressão constante de validação externa, o risco de sofrimento psíquico aumenta.”

Zoldan também aponta outros impactos da exposição constante a padrões irreais. “Pode aumentar inseguranças e favorecer quadros de ansiedade e insatisfação”, explica.

Importância das conexões reais

Apesar do destaque para as redes sociais, o relatório reforça que fatores estruturais continuam sendo os principais determinantes da felicidade.

Entre eles, o apoio social (ter com quem contar) segue como um dos elementos mais relevantes.

Em alguns casos, o impacto do sentimento de pertencimento, como o vínculo com a escola, pode ser até seis vezes maior na satisfação com a vida do que a redução do uso intenso de redes sociais.

Zoldan avalia que esse dado pode ajudar a colocar o debate em perspectiva. “As redes influenciam, mas não substituem relações reais. O que sustenta o bem-estar é a qualidade dos vínculos fora das telas”, finaliza. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: Jornal O Sul