Por que o heavy metal atrai multidões de fãs fiéis no Brasil?

 


Ao passar em frente a uma loja, Fabio Falkenburger ficou fascinado com a capa de um disco, que mostrava um homem loiro, com a boca bem aberta e uma das mãos segurando um osso tão grande que parecia ter saído da coxa de um búfalo.

A imagem, tão surreal quanto engraçada, ficou na cabeça do menino de sete anos. “Aquilo me impressionou tanto que pedi para a minha mãe comprar”, lembra Falkenburger, hoje um bem-sucedido advogado de 48 anos, sócio de um escritório na região da Faria Lima.

O disco em questão é “Stay Hungry” (1984), do Twisted Sisters. Com hits como “We’re Not Gonna Take It” e “I Wanna Rock”, o álbum impressionou Falkenburger e fez com que a banda liderada pelo vocalista Dee Snider (o homem loiro da capa) se tornasse um dos nomes mais populares do heavy metal e impulsionou a vinda do grupo ao Brasil em 1985, para uma apresentação na histórica primeira edição do Rock in Rio.

“Aquele festival teve Iron Maiden, Scorpions, AC/DC, Whitesnake era muita banda boa. Eu tinha quase oito anos. Não teve jeito, ali eu realmente virei fã de heavy metal”, relembra.

A história de Falkenburger é parecida com a de Leonardo Sianga Assis. Ainda criança, com 10 anos, ele achou um DVD do Metallica, o “The Videos 1989-2004”, em uma gaveta na sala de casa. Era da coleção do pai. Na capa, a imagem de uma televisão em um fundo vermelho e preto.

Assis colocou o disco para rodar e se apaixonou por músicas como “Enter Sandman”, “One” e “Fuel”. “Desde aquele dia, entendi o que era o Metallica, o que era o heavy metal, e então não parei mais de procurar músicas e bandas.”

Mas, enquanto o advogado Falkenburger nasceu em 1977, Assis está com 26 anos, é estudante de engenharia de produção e mora em Vila Velha (ES). Os dois são exemplos da vitalidade do heavy metal, um gênero musical que tem mais de cinco décadas de vida e que continua conquistando fãs das mais variadas gerações.

O heavy metal pode não ser tão popular quando o sertanejo, o forró, o samba ou o gospel (os preferidos dos brasileiros, segundo pesquisa Quaest divulgada no ano passado), mas o que faz essa música erguida sobre guitarras e bateria pesadas, com letras muitas vezes tétricas ou que flertam com o ocultismo, levar uma multidão de gente a festivais como o Monsters of Rock ou o Bangers Open Air (que terá a quarta edição nos dias 25 e 26 de abril, no Memorial da América Latina, com 40 atrações distribuídas em quatro palcos) ou a shows como os do AC/DC em São Paulo, em que a banda australiana lotou o estádio Morumbi em três datas entre 24 de fevereiro e 4 de março?

“O heavy é liberdade, é uma música inclusiva. Não está preso a modas, a fórmulas de sucesso ou a estereótipos. Quer saber por que é uma música com fãs tão devotados? Porque o heavy é porque é verdadeiro”, afirma Andreas Kisser, 57, guitarrista do Sepultura, uma das bandas brasileiras mais conhecidas no mundo, não apenas entre quem gosta de um som pesado.

“O heavy metal é uma música honesta. As bandas tocam em todos os lugares, não importa a estrutura. O Iron Maiden não está preocupado se está tocando nas rádios, se está nas paradas da ‘Billboard’. Faz parte do business da música? Faz, mas não é isso o que move o heavy metal.”

Kisser ouve e gosta de diversos tipos de música, mas está envolvido com heavy metal desde que era criança. É um entusiasta e profundo conhecedor. Ao Valor, ele ressalta que a dedicação dos fãs não é apenas afetiva. É, também, financeira. “São pessoas que fazem esforço para contribuir, elas demonstram que realmente amam as bandas. Elas compram os discos e materiais de merchandising, vão aos shows. Tudo isso dá muita força aos artistas.”

Ex-roadie da banda Angra, hoje um empresário que tem sob sua responsabilidade a revista e plataforma de conteúdo Roadie Crew e o festival Bangers Open Air, Claudio Vicentin, 55, aponta que o heavy metal, no Brasil, pode ser um mercado “de nicho”, mas “com um público bem qualitativo”.

“É um público que paga um tíquete médio alto nos eventos, que consome dentro do festival, que compra produtos, que gosta de viajar para ver shows”, afirma.

Segundo Vicentin, por ter esse público tão entusiasmado, o Brasil tornou-se um dos principais centros de heavy metal do mundo.

“Temos ainda a Alemanha e a Escandinávia, onde o metal é muito popular. Nos EUA também. Mas a energia dos latinos sempre emociona os artistas que vêm tocar aqui. São fãs fervorosos mesmo. O Brasil, por exemplo, é o país em que mais se ouve Iron Maiden no streaming.”

Para ilustrar a expansão do heavy metal pelo mundo, Kisser lembra de algumas turnês do Sepultura.

“O metal se adapta a tudo. Estamos aqui ainda hoje por causa disso. Antes da pandemia, fomos fazer um show em Cuba. Foi uma logística bem difícil, não tinha cachê, levamos todo o equipamento. Financeiramente não fazia o menor sentido, mas fomos porque queríamos ir para lá e encontrar os fãs cubanos. Mas valeu muito. Tocamos para 80 mil pessoas.” As informações são do jornal Valor Econômico.

Fonte: Jornal O Sul.