Páscoa não pode ser tempo de medo

 


A Páscoa é o tempo mais importante da fé cristã. É a celebração da ressurreição de Jesus Cristo, que venceu a morte para nos dar vida. É também um convite à renovação, não apenas espiritual, mas de atitudes, escolhas e compromissos com o próximo.

E é justamente nesse chamado à renovação que surge uma reflexão necessária. A fé que celebramos precisa se traduzir em cuidado, respeito e proteção à vida, especialmente dentro de casa, onde tantas mulheres ainda enfrentam violência.

Renovar a fé não pode ser apenas um gesto simbólico. Precisa ser compromisso real com a vida. Porque, no Rio Grande do Sul, o que deveria ser um período de paz tem se transformado em alerta. Na Páscoa de 2025, foram 10 feminicídios. Dez mulheres assassinadas. Dez famílias destruídas. Dez histórias interrompidas.

E esses crimes não acontecem por acaso. Eles seguem um padrão cruel e repetido. Em 84,7% dos casos, o agressor é companheiro ou ex-companheiro. O lar, que deveria ser refúgio, virou o lugar mais perigoso. No Brasil, uma em cada três mulheres já sofreu violência física ou sexual. Em 2025, foram 1.568 mulheres mortas, uma média de quatro por dia. No Rio Grande do Sul, 80 vítimas, sendo que 95% não tinham medida protetiva.

Isso revela uma falha coletiva. Não é um problema isolado. É uma cultura que ainda tolera o controle, o ciúme e a violência como expressão de poder. É o silêncio que protege o agressor. É o medo que paralisa. É a dependência que aprisiona.

Renovar a fé é romper com isso. É não aceitar mais que mulheres vivam com medo. É não relativizar agressões. É agir antes que o pior aconteça.

Os dados mostram que muitas vítimas não denunciam por medo, por falta de confiança na punição ou por dependência financeira. Mas cada sinal ignorado custa vidas. Cada omissão fortalece a violência.

Por isso, o recado precisa ser direto. Não espere o pior. Denuncie. Ligue 180. Se presenciar qualquer situação de violência, não se omita.

Paz não é discurso. Paz é atitude. É coragem. É responsabilidade.

Se a Páscoa representa vida nova, então que essa vida comece agora. Com uma decisão firme de proteger. Porque a vida das mulheres não pode continuar sendo interrompida enquanto a sociedade se cala.

* Vera Armando – jornalista e vereadora de Porto Alegre (@veraarmando.rs)

Fonte: Jornal O Sul.