Paixão de Cristo: como foi a morte de Jesus, segundo a ciência


Estudos forenses e achados arqueológicos ajudam a explicar como foi a morte de Jesus, com hipóteses que vão além da asfixia. A crucificação foi uma punição usada por Roma contra escravizados e rebeldes. Historiadores apontam que a execução se insere no contexto de repressão do Império Romano a quem era visto como ameaça política e religiosa.

A morte na cruz, cujo simbolismo acabou se confundindo com a própria religiosidade cristã, não era um acontecimento raro naquela época.

“A crucificação era a pena de morte usada pelos romanos desde o ano 217 a.C. para escravos e todos aqueles que não eram cidadãos do Império”, explica o cientista político, historiador especializado em Oriente Médio e escritor italiano Gerardo Ferrara, da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, de Roma.

“Era uma tortura tão cruel e humilhante que não era reservada a um cidadão romano. Era precedida pelo açoite, infligido com vários instrumentos, conforme a origem e a proveniência social dos condenados.”

“A crucificação não foi invenção romana mas estava amplamente disseminada no Império Romano. Fazia parte de uma rotina dentro dos territórios que hoje chamamos de Israel”, pontua Chevitarese. “Mais ou menos uns 40 anos depois da morte de Jesus, quando houve a tomada de Jerusalém, milhares de judeus foram crucificados.”

A medicina legal tentou reconstruir o que acontece com o corpo preso a uma cruz. O médico legista norte-americano Frederick Zugibe descreveu, a partir de testes com voluntários suspensos em réplicas, cãibras, colapso muscular e dificuldade respiratória intensa.

A hipótese mais difundida por décadas foi a de asfixia progressiva. A ideia é que o condenado precisaria fazer força constante para elevar o corpo e conseguir inspirar, até perder totalmente a força e morrer sufocado. O cirurgião francês Pierre Barbet popularizou a tese da asfixia em 1950. Ele sustentou que a posição de crucificação comprimia o diafragma e levava à insuficiência respiratória, hipótese ainda considerada por parte da comunidade médica.

Zugibe contestou os métodos de Barbet e defendeu outra causa provável. Para ele, ex-patologista do Instituto Médico Legal de Rockland County (NY), a morte de Jesus teria ocorrido por choque hipovolêmico, quando a perda grande de sangue reduz o volume circulante e pode levar à parada cardíaca. Artigo científico de 2021 citou hipovolemia entre as causas mais prováveis na crucificação. O texto aponta três possibilidades principais: hipovolemia, asfixia e infarto.

Eram três as maneiras de se executar um condenado na Roma antiga. Segundo explica Chevitarese, um objetivo as unia: não permitir a preservação de vestígios de memória — em outras palavras, impossibilitar que restos mortais fossem sepultados.

Geralmente aos circos romanos eram destinados os condenados por crimes como assassinato, parricídio, crimes contra o Estado e estupros. Na arena, esses criminosos enfrentavam feras até a morte — seus restos eram devorados pelos bichos. Uma segunda forma de execução era a fogueira, que também não deixava muitos resíduos do corpo.

A crucificação era a pena destinada a escravos que atentavam contra a vida dos seus senhores e aqueles que se envolviam em rebeliões. Além de todos os que não eram cidadãos romanos, caso de Jesus. “Ainda vivos, na cruz, aves de rapina já começavam a comer o condenado. Três ou quatro dias depois, a carne desse indivíduo, apodrecendo, caía da cruz e cães e outros animais terminavam de fazer o serviço”, contextualiza Chevitarese.

O historiador sustenta que crucificados costumavam ficar expostos por dias, como exemplo público, e que Roma não priorizava o sepultamento desses condenados. A ausência de restos mortais também é associada ao costume romano de apagar a memória do condenado. Na avaliação do historiador, isso ajudaria a explicar por que não há cemitérios identificados de vítimas de crucificação e por que o enterro de Jesus pode ter sido uma necessidade teológica, não um fato verificável.

Fonte: Jornal O Sul