Os três principais pilares que sustentam os relacionamentos


Após milhares de horas recebendo centenas de pessoas em meu consultório, ouvindo reclamações, desabafos e casos que até emocionam, mesmo tentando manter a postura imparcial e profissional, há coisas que realmente mexem com a gente.

Cheguei à conclusão de que existem três pilares fundamentais para sustentar um relacionamento. Eles não são os únicos, mas são a base de toda a estrutura. Há relacionamentos que não terminam de uma vez. Começam com aquela chama ardente e, aos poucos, vão se apagando.

Isso geralmente acontece em silêncio, enquanto, por fora, ainda parecem de pé. Continuam existindo na rotina, nas fotos, nos compromissos, nas datas, mas já não respiram como antes.

E, quase sempre, esse esvaziamento começa quando esses pilares começam a falhar: admiração, amor e intimidade. Quando esses três elementos estão vivos, a relação tem profundidade, presença e continuidade. Quando um deles enfraquece, o vínculo racha.

Quando dois se fragilizam, a distância começa a se instalar. E, quando os três desaparecem, o que sobra, muitas vezes, é apenas convivência apática.

Pilar 01 – Admiração

A admiração é um dos elementos mais negligenciados dentro de uma relação e, paradoxalmente, um dos mais importantes.

Admirar não é idealizar. Não é ignorar as imperfeições do parceiro (a), nem transformar o outro em personagem. Admirar é continuar reconhecendo valor em quem está ao seu lado, apesar de…

É enxergar caráter, esforço, respeito, qualidades e postura. É olhar para a pessoa real, e não para uma fantasia idealizada, e, ainda assim, sentir respeito e encanto. Sem admiração, o relacionamento perde uma camada essencial.

Porque o amor até pode resistir por um tempo sem euforia, novidade e até romance, mas dificilmente resiste por muito tempo sem respeito e admiração.

Pilar 02 – Amor

O amor também precisa ser compreendido para além da ideia romântica. Amor não é apenas sentimento. Sentimentos mudam de temperatura, oscilam, se confundem, atravessam fases e cansaços.

O amor maduro não se sustenta apenas no que se sente, mas no que se escolhe construir. Ele aparece no cuidado, na presença, na responsabilidade emocional e na disposição de fazer dar certo sem transformar tudo em batalha de ego.

Amar é mais do que gostar. É tratar o outro com consideração e respeito, mesmo nos dias difíceis. É não usar a intimidade como licença para a grosseria.

É saber que a confiança se fortalece nos gestos pequenos, e não apenas nas grandes declarações. O amor real não vive só de intensidade; precisa de consistência, paciência e resiliência.

Pilar 03 – Intimidade

E, então, chegamos à intimidade, que muita gente ainda reduz ao campo físico, quando ela começa muito antes disso. Intimidade é proximidade emocional. É liberdade para ser inteiro, sem medo de humilhação, desprezo ou julgamento.

É o espaço onde duas pessoas podem baixar a guarda. É o lugar onde o silêncio não pesa, onde a conversa não precisa de performance e onde a presença do outro ainda traz conforto.

A intimidade física tem seu valor e sua beleza, mas não se sustenta sozinha. Quando a intimidade emocional é rompida, esse pilar se desmonta sozinho. O corpo pode até permanecer perto, mas a alma já se afastou.

E, quando isso acontece, o toque perde verdade, a leveza desaparece e aquilo que deveria ser encontro começa a parecer obrigação. Por isso, a comunicação ocupa um lugar central. Não basta falar. É preciso dizer com intenção e escutar com presença.

Muitos casais não entram em crise por falta de amor, mas por excesso de ruído. Falam para responder, se defender, acusar ou vencer uma discussão, mas já não falam para compreender.

E, quando ninguém mais se sente realmente ouvido, a relação começa a adoecer por dentro.

Conclusão

Relacionamentos saudáveis se sustentam em projeto, direção e parceria. Casais que caminham juntos não compartilham apenas a casa, as contas ou a agenda. Compartilham sentido.

Compartilham visão, um pedaço do futuro, alegrias e tristezas. Quando isso desaparece, o relacionamento corre o risco de se tornar apenas administração da vida cotidiana.

Talvez, por isso, seja tão importante, de tempos em tempos, revisitar o início. Não por nostalgia infantil, mas por honestidade.

Lembrar o que encantou, o que te fez gostar daquela pessoa – e se isso ainda existe? Ainda pulsa? Ainda merece cuidado?

Às vezes, algumas perguntas sinceras valem mais do que muitos discursos bonitos…

Agora, pequenas perguntas para finalizar:

– Vocês ainda se admiram?

– O amor está sendo demonstrado ou apenas presumido?

– A intimidade ainda é abrigo ou virou obrigação?

– Vocês se escutam de verdade ou apenas coexistem?

– Ainda caminham juntos ou apenas permanecem no mesmo lugar?

É preciso entender que relacionamentos não se mantêm sozinhos. Eles exigem consciência, presença, escolhas e os três pilares básicos que sustentam a relação.

Porque, no fim, relacionamento saudável não é aquele que nunca enfrenta crises. É aquele que ainda conserva verdade, respeito e profundidade suficientes para se reconstruir, quantas vezes forem necessárias.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

Fonte: Jornal O Sul