“O grande problema é a ignorância com drogas que previdem o HIV, inclusive entre profissionais da saúde”, alerta médico


O ano de 2026 começou com boas notícias para a prevenção ao HIV. Em janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o lenacapavir, primeiro medicamento injetável a cada seis meses que evita a infecção em quase 100%. O fármaco foi desenvolvido pelo laboratório americano Gilead Sciences.

Trata-se de uma nova alternativa de profilaxia pré-exposição (PrEP), que hoje já é disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) por meio de comprimidos diários que, embora também altamente eficazes, têm a adesão mais difícil. No entanto, apesar do alto potencial de impacto na epidemia do HIV, o preço é um entrave.

Nos Estados Unidos, o tratamento custa mais de 28 mil dólares por pessoa a cada ano (cerca de R$ 150 mil na cotação atual). No Brasil, ainda não há previsão de valores. A Fiocruz firmou um acordo com a Gilead para avaliar a possibilidade de uma transferência de tecnologia para produção local.

Por enquanto, no momento em que o país vive uma alta nos novos casos de HIV, o acesso ainda será uma realidade distante, alerta o vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Veriano Terto Jr.

* Qual a importância de termos PrEPs de longa duração?

Dispormos de um arsenal cada vez mais amplo de possibilidades para atender a diferentes escolhas e necessidades da população. Sabemos que nem todas as pessoas conseguem aderir a um mesmo método de prevenção. Dependendo da sua fase de vida, de como ela organiza a sua sexualidade e a sua afetividade, isso pode mudar.

As pessoas são muito diferentes e termos mais estratégias, métodos diferenciados, que as pessoas possam escolher a que se adapta para o seu momento de vida é o ideal. E, em relação à PrEP em comprimidos, os estudos têm indicado que nem todas as pessoas que iniciam conseguem se manter ao longo do tempo.

Há uma desistência considerável, que pode chegar a mais de 40% do total, então precisamos de alternativas para aqueles que não se adaptam à PrEP oral. É importante para o que chamamos de prevenção combinada, ou seja, combinar diferentes métodos para aumentar a adesão às práticas que previnem a infecção. E é uma injeção muito efetiva, tem um grau de proteção tão bom quanto o preservativo, chega a quase 100%. O risco de se infectar é ínfimo.

* Como é o acesso hoje à PrEP em comprimidos no Brasil?

Em princípio, a PrEP está disponível para todas as pessoas que têm vida sexual ativa e quiserem no SUS. O processo envolve testagem para HIV e outras ISTs, aconselhamento e aí a pessoa passa a receber os medicamentos. Em alguns lugares do país, ele já pode até mesmo ser enviado por correio ou retirado em locais específicos para isso, como máquinas no metrô em São Paulo.

O grande problema ainda é a ignorância. Muitos desconhecem ou têm informações inconsistentes sobre o que ela é, inclusive entre os próprios profissionais de saúde. Ainda temos médicos que apenas ouviram falar, sabem que podem existir, mas não têm a informação completa para indicar a um paciente.

Precisamos de mais informação, falar sobre PrEP principalmente com a juventude, nos serviços de saúde. Mas infelizmente é muito difícil por conta da onda conservadora que a nossa sociedade vive. Isso impede os debates relacionados à sexualidade, à saúde sexual e reprodutiva. Muitos que poderiam estar se beneficiando da PrEP não estão porque a desconhecem.

E ainda há uma questão logística de acesso também, muitas cidades ainda não têm a oferta de PrEP, são poucos os serviços no país. Muitos abandonam porque moram longe dos locais onde tem.

* Vemos ainda críticas à PrEP como uma política pública?

Sim, o conservadorismo acaba impedindo muitas vezes abordagens mais atualizadas, científicas e claras sobre a PrEP e dá lugar a esses juízos que a colocam como um gasto de dinheiro com a devassidão, com a promiscuidade, alegando que as pessoas não se cuidam. Tem muito moralismo. Quando, na verdade, a PrEP é uma medida de cuidado, porque a pessoa fica condicionada a aconselhamento sobre ISTs, testagens, o que protege a si mesmo e o próximo. O que incentiva a irresponsabilidade é a hipocrisia. Porque sabemos que as pessoas têm comportamentos sexuais diferentes. (Com informações do jornal O Globo)

Fonte: Jornal O Sul