Lua vira nova fronteira de disputa por recursos; veja o papel do Brasil
– Por que o interesse pela Lua voltou? A última vez que o homem pisou na Lua foi em 1972, durante as missões do programa Apollo. No último dia 1º, a missão Artemis II marcou a retomada das viagens tripuladas ao entorno do satélite. A Nasa enviou astronautas em uma jornada para um sobrevoo lunar, um marco rumo a ambições ainda maiores. A histórica missão Artemis II, que marcou o retorno do homem à órbita lunar, chegou ao fim na sexta-feira (10). Após dez dias, os quatro astronautas a bordo da cápsula Orion, da Nasa, voltaram à Terra com um pouso realizado no Oceano Pacífico, a cerca de 100 quilômetros da costa da Califórnia (EUA), às 21h07 (horário de Brasília).
Mas por que o interesse da humanidade pela Lua redespertou décadas depois? Segundo Alexandre Cherman, diretor do Planetário do Rio de Janeiro, a resposta está na viabilidade econômica.
“Economicamente ainda não era viável. Hoje nós sabemos que a lua tem minerais tem elementos químicos muito importantes para a economia da Terra”, diz.
Cherman aponta que alguns desses minerais e elementos são encontrados também no planeta Terra e estão em evidência mais do que nunca.
“Todo mundo já ouviu falar dos elementos de terras raras, que são muito importantes para a microinformática, compostos eletrônicos. Então assim, 99% da eletrônica que você tem, celular, câmera, televisão, depende desse tipo de minerais”.
Mas o recurso mais cobiçado é o Hélio-3. Está sendo chamado de “ouro da lua” ou “combustível do futuro”. Considerado uma fonte de energia eficiente, limpa e sem emissão de gás carbônico, rara na Terra.
“A energia nuclear do futuro é a fusão nuclear, que são elementos leves que não deixam o rastro radioativo. E o hélio-3, que é esse isótopo que tem muito na lua, é muito, muito importante para esse processo”.
Empresas privadas já se movimentam nesse mercado. Uma startup norte-americana, por exemplo, desenvolve tecnologias para a extração do material diretamente na Lua.
– Disputa entre países e tentativa do Brasil de se inserir na corrida espacial: Cerca de 70 países já participam de acordos de cooperação para exploração lunar, como os Estados Unidos e a China.
O Brasil tenta avançar nesse cenário com dois projetos que podem integrar futuras missões.
O diretor da Agência Espacial Brasileira conta que um acordo bilateral está sendo negociado com os Estados Unidos para que dois projetos nacionais peguem uma “carona” rumo à Lua ao longo do projeto Artemis.
Entre eles, estão: um satélite científico de clima espacial, desenvolvido pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que deve orbitar a Lua; e um projeto com a Embrapa para cultivo de alimentos em bases lunares.
Os primeiros testes devem incluir alimentos como grão-de-bico e batata-doce.
“Já temos aí financiamento para esses dois projetos. Então nós estamos discutindo com a com a Embrapa vários cenários cenários, por exemplo, de você fazer cultivo dentro de uma base lunar então você teria e fazendas verticais eventualmente existem cavernas na lua e dentro de uma caverna dessa a gente poderia encontrar um ambiente mais propício para você fazer esse tipo de cultivo”, explica Rodrigo Leonardi, diretor da Agência Espacial Brasileira.
– Da ficção à realidade: A possibilidade de cultivar alimentos fora da Terra já foi explorada no cinema. No filme Perdido em Marte, um astronauta sobrevive ao plantar batatas em solo marciano — cenário inspirado em estudos reais conduzidos pela Nasa.
Hoje, iniciativas semelhantes começam a sair do campo da ficção. Estados Unidos e China já iniciaram testes com sementes em missões não tripuladas à Lua.
– De volta à Lua e rumo a Marte: A nova corrida espacial combina desenvolvimento científico, disputa tecnológica e interesses econômicos. Diferentemente do passado, a presença humana na Lua agora é vista como um projeto de longo prazo.
A expectativa é que o satélite funcione como uma base para futuras missões mais ambiciosas – especialmente para Marte, o chamado “planeta vermelho”.
“Vai-se à Lua, vai-se voltar à Lua e manter uma presença no satélite, que servirá como portal para o próximo passo: a chegada a Marte. Não tenho dúvidas de que a primeira pessoa que vai a Marte já nasceu”, pontua Alexandre Cherman, diretor do Planetário do Rio.
Fonte: Jornal O Sul
