Autismo e alimentação: novas evidências acendem alerta entre especialistas


O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado no último dia 2 de abril e instituído pela Organização das Nações Unidas, reforça a necessidade de ampliar o conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e combater o estigma que ainda cerca pessoas autistas e suas famílias. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o TEA engloba condições do neurodesenvolvimento caracterizadas por diferentes graus de comprometimento na comunicação, na interação social e no comportamento. Os sinais costumam surgir ainda na infância e acompanham o indivíduo ao longo da vida, com níveis variados de autonomia e necessidade de suporte.

O conceito de espectro reflete justamente essa diversidade. Enquanto algumas pessoas conseguem levar uma rotina independente, outras demandam acompanhamento contínuo e mais cuidados. Também é comum a presença de condições associadas, como ansiedade, depressão, epilepsia e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Nos últimos anos, o crescimento no número de diagnósticos tem chamado a atenção em todo o mundo. Segundo o médico Fábio Bolognani, diretor da Sétima Enfermaria da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, esse aumento está ligado tanto à ampliação dos critérios diagnósticos quanto ao maior nível de informação da população e dos profissionais de saúde.

Um dos avanços mais relevantes, segundo ele, é a identificação de casos em meninas — historicamente subdiagnosticadas por apresentarem sinais mais sutis ou diferentes dos observados em meninos. O novo olhar tem contribuído para corrigir essa distorção e ampliar o acesso ao diagnóstico precoce.

Além da evolução nos critérios clínicos, cresce também o interesse científico sobre o impacto de fatores ambientais no desenvolvimento neurológico. Bolognani destaca estudos recentes que investigam alterações na aromatase, enzima essencial para a maturação cerebral e regulação hormonal.

“Há evidências de que essas alterações possam estar associadas à exposição ao Bisfenol A (BPA), substância presente em plásticos como garrafas PET e embalagens de alimentos. Quando aquecidos, esses materiais podem liberar compostos químicos capazes de interferir no organismo, hipótese que ainda está em investigação”.

Outro ponto que vem ganhando espaço é a relação entre alimentação e comportamento. Pesquisas analisam, por exemplo, o impacto de conservantes presentes em alimentos industrializados, como o propionato, levantando a hipótese de que os efeitos não estejam apenas no glúten, mas também em aditivos químicos.

A psiquiatra Jessica Martani afirma que, embora ainda não exista consenso, a prática clínica já observa sinais importantes. “Alguns pacientes apresentam maior sensibilidade a determinados alimentos ou aditivos, o que pode influenciar comportamento, sono e níveis de irritabilidade. Isso não significa que exista uma dieta única para o autismo, mas reforça a necessidade de uma abordagem individualizada e baseada em evidências”, explica.

Esse cenário se conecta a um desafio comum no TEA: a seletividade alimentar. Padrões restritivos podem dificultar a manutenção de uma dieta equilibrada, o que torna indispensável o acompanhamento profissional.

Segundo Bolognani, o tratamento pode envolver diferentes estratégias, incluindo abordagens complementares. Ele afirma que o uso de medicamentos homeopáticos tem apresentado resultados relevantes em alguns casos, especialmente em pacientes com maior necessidade de suporte, podendo ser associado a tratamentos tradicionais e terapias como psicopedagogia e fonoaudiologia.

A terapeuta transpessoal (atua no corpo e mente) Patrícia Baron reforça a importância de olhar o indivíduo de forma integral. “O acolhimento e o respeito à individualidade são essenciais para promover qualidade de vida”, afirma.

Doutro Fabio diz que m 2014, levantou-se a hipótese de que o propionato de cálcio, conservante presente em produtos à base de farinha de trigo, poderia influenciar o organismo. “Um estudo experimental nos Estados Unidos observou alterações comportamentais em cobaias expostas à substância, sugerindo que o impacto não se restringe ao glúten. A prática clínica também considera diferentes níveis de suscetibilidade e manifestações no desenvolvimento infantil, especialmente na comunicação e interação social”, afirmou o médico.

No campo educacional, especialistas destacam que a inclusão vai muito além do acesso à escola. Para a professora e CEO do Foco Medicina, Carol Braga, o ensino precisa considerar as particularidades do aluno com TEA.

“O estudante com autismo não tem menor capacidade de aprendizado. Ele apenas processa informações de forma diferente. Quando a instituição entende isso, deixa de tratar igualdade como padronização e passa a trabalhar com equidade, o que impacta diretamente na autonomia e no desempenho”, afirma.

Ela ressalta que o cuidado individualizado pode ser decisivo. “Ajustes no ritmo, na forma de explicação e na organização das tarefas reduzem barreiras e permitem que o aluno expresse seu real potencial”, explica.

O ambiente também exerce influência direta. “Quando o aluno se sente seguro e compreendido, ele consegue focar no aprendizado em vez de lidar com ansiedade ou frustração”, completa.

A psicóloga Alice Araújo reforça que adaptar o contexto educacional é essencial para o desenvolvimento. “Alunos com TEA têm formas específicas de processamento cognitivo e emocional. Quando o ambiente se ajusta, ele reduz barreiras e aumenta a percepção de capacidade”, afirma.

Segundo ela, o impacto vai além do desempenho acadêmico. “O cuidado individualizado permite identificar gatilhos de ansiedade e estruturar estratégias que favorecem foco, organização e regulação emocional”, diz.

O acolhimento emocional também é determinante. “Quando o aluno se sente validado, diminui respostas de medo e frustração, aumentando o engajamento e a autonomia”, explica. A especialista alerta ainda para os riscos da falta de adaptação. “Experiências repetidas de fracasso afetam a autoestima e podem levar à desmotivação e até à evasão escolar”, afirma.

Ela também chama atenção para o excesso de estímulos. “A sobrecarga sensorial pode gerar irritabilidade e prejudicar a concentração, enquanto a pressão excessiva aumenta a ansiedade e impacta funções cognitivas importantes”, completa.

Apesar dos avanços, especialistas são unânimes ao afirmar que o autismo não possui uma causa única. Trata-se de uma condição multifatorial, que envolve fatores genéticos, biológicos e ambientais. Diante desse cenário, o Dia Mundial de Conscientização do Autismo reforça a importância da informação de qualidade, do diagnóstico precoce e da construção de ambientes mais inclusivos.

Ao ampliar o debate sobre alimentação, fatores ambientais e mudanças no perfil dos diagnósticos, a data deixa um recado claro: compreender o autismo é essencial para promover uma sociedade mais justa, informada e preparada para acolher a diversidade. As informações são do jornal O Dia.

Fonte: Jornal O Sul