Ao completar 50 anos, como a Apple vai se reinventar na era da inteligência artificial? Entenda
Nos últimos meses, as principais empresas de tecnologia do mundo se comprometeram a gastar juntas US$ 650 bilhões. A conta inclui apenas Amazon (US$ 200 bilhões), Google (US$ 185 bilhões), Microsoft (US$ 114 bilhões) e Meta (US$ 135 bilhões), o que significa que a cifra é ainda maior quando inclui OpenAI, Anthropic e xAI. A previsão orçamentária de gastos da Apple para 2026 é bem mais modesta: US$ 14 bilhões, número que não se alterou nos últimos anos.
É uma posição que levanta dúvidas sobre o futuro da empresa. Desde que anunciou a Apple Intelligence, em 2024, a gigante pouco impressionou. A plataforma de IA se mostrou inferior a outros serviços e a transformação da Siri foi decepcionante – atualmente, a companhia já está em seu terceiro ciclo para turbinar a assistente digital.
Em dezembro de 2025, a Apple trocou o comando da sua divisão de IA e trouxe Amar Subramanya, com longas passagens por Microsoft e Google, para liderar os esforços. É um cenário impossível de ignorar:
“O futuro de toda empresa de tecnologia vai passar por IA. A gente está passando por uma transformação muito profunda, como foi com a internet. A Apple foi o grande player de como interagimos com sistemas, então ela não pode ficar de fora. Não tem como ficar ileso”, afirma Manoel Lemos, sócio-diretor da Redpoint eventures.
É um momento único na história da companhia, que sempre correu por fora antes de transformar a computação pessoal. Quando criou o Apple II, o iMac, o iPod e o iPhone, a Apple não era o principal nome dessas indústrias. Desta vez, a missão é mais difícil: como liderar uma nova era da tecnologia quando não se é o azarão?
Mas, os relatos sobre a morte da Apple parecem exagerados:
“Em minhas pesquisas, percebi que, a cada década, as pessoas preveem o fim da Apple. A companhia é subestimada de maneira contínua”, conta David Pogue.
O jornalista americano cobre a empresa há 35 anos lançou no começo de março o livro “Apple: The First 50 years” (Apple: Os primeiros 50 anos, em tradução livre), no qual entrevistou mais de 150 pessoas para recontar a história da gigante.
Ele aponta para que a Apple nunca é a primeira a desenvolver novas tecnologias, mas é a companhia que sabe melhor implementá-las. De fato, quase ninguém lembra do LG Prada, o primeiro smartphone de tela sensível ao toque, lançado em 2006, ou do Saehan MPMan F10, primeiro tocador de MP3, lançado em 1998. Fora das bolhas nerd, pouca gente associa à Xerox a interface gráfica dos computadores. Na era da IA, a companhia pode estar de olho em uma trajetória parecida.
“Se a Apple conseguir fazer algo incrível com IA, tudo será perdoado”, afirma Pogue.
Para analistas, a gigante tem uma grande vantagem em relação aos concorrentes, que serve como uma rede de segurança que permite erros ou lentidão na estratégia: a base de usuários.
“A maioria das pessoas do mundo vai acessar IA por um dispositivo da Apple. Ela tem 2,5 bilhões de dispositivos, a maior base ativa de clientes do mundo. Isso permite que ela chegue atrasada ao jogo. É uma grande oportunidade, mas o momento é crucial para monetizar esses clientes”, afirma Dan Ives, analista da Webbush Securities.
Com esse caminho nada desprezível, isso significa que o futuro da Apple em IA ainda passa por bons dispositivos voltados para o consumidor final: “Eu não vejo a Apple primeiro como uma empresa de software e segundo de hardware. Primeiro, ela é uma empresa de hardware e depois de software”,, diz Lilian Carvalho, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
É uma posição bastante diferente em relação às outras gigantes do setor. Ainda que Amazon, Google, Meta e Microsoft se arrisquem em projetos esporádicos de gadgets e estejam construindo enormes reservas de chips de IA, o foco de todas sempre foi software, plataforma ou as duas coisas. Nenhuma delas conseguiu se posicionar como a Apple, o que não deve mudar no futuro.
“Há princípios e missões da Apple que não mudaram em 50 anos. Uma delas é controlar tudo de ponta a ponta, como Steve Jobs (fundador da empresa) costumava dizer”, afirma Pogue.
Isso significa que o futuro da Apple na IA continuará a ser moldado pela alta integração entre hardware e software. Mas isso significa que o iPhone continuará como pilar da estratégia? Atualmente, é difícil não imaginar um papel relevante para o smartphone. Ele ainda representa 50% da receita da gigante. No trimestre passado, as vendas cresceram em todo o mundo, totalizando US$ 85,3 bilhões. Tim Cook, CEO da Apple, afirmou que foi o melhor período de vendas da história do aparelho, com uma demanda “sem precedentes”.
Ives, por exemplo, projeta que o modelo de 2027, que celebra os 20 anos do iPhone, será um marco, com um formato verdadeiramente diferente e totalmente habilitado para IA. As informações são do jornal O Globo.
Fonte: Jornal O Sul
