O funeral das tendências e o nascimento das convergências

 



Escrevo estas linhas às vésperas do início do South Summit Brasil, que acontece em Porto Alegre e já se consolidou como um dos maiores encontros de inovação e empreendedorismo da América Latina. O evento reúne startups, investidores e corporações para debater negócios sustentáveis, tecnologia e futuro. É nesse clima de efervescência que compartilho reflexões sobre uma palestra que me marcou profundamente: a da futurista Amy Webb, apresentada no SXSW, o festival de inovação e cultura realizado em Austin, nos Estados Unidos.

Durante anos, executivos e governos aguardavam ansiosamente o Tech Trends Report, relatório anual que apontava tendências tecnológicas e ajudava a orientar estratégias. Mas Webb decretou o fim desse documento, realizando até um “funeral simbólico” para marcar sua despedida. O motivo é claro: o ritmo das transformações tornou impossível prever o futuro por meio de tendências lineares. Em vez disso, ela propõe o estudo das convergências, quando diferentes forças — tecnologia, economia, política, demografia e sociedade — se encontram e se reforçam mutuamente, provocando mudanças irreversíveis.

Essa ideia lembra a meteorologia: quando variáveis como umidade, temperatura e vento convergem, formam tempestades. No caso das tecnologias, as tempestades são sistêmicas e redistribuem poder e valor entre setores e indústrias. Webb apresentou três delas que já começam a se formar.
A primeira é a dos Super-Humanos, resultado da fusão entre biologia e tecnologia para expandir capacidades físicas e cognitivas. O corpo humano, segundo ela, passará a ser tratado como uma plataforma. Confesso que essa visão me causa certo desconforto, pois mexe com a essência da nossa humanidade.

A segunda tempestade é o trabalho ilimitado, impulsionado por agentes de inteligência artificial — softwares capazes de executar tarefas de forma autônoma e interagir entre si sem intervenção humana. Essa revolução inclui robôs humanoides e veículos autônomos, prenunciando fábricas sem pessoas e uma economia que cresce sem depender de salários. Pela primeira vez, produção e escala não estarão vinculadas à população. É assustador imaginar uma sociedade sem trabalhadores, com pessoas sem ofício.

A terceira tempestade é a terceirização das emoções, ou emotional outsourcing. Relações humanas, antes mediadas por amigos, familiares ou terapeutas, podem ser substituídas por companheiros digitais, romances artificiais e até práticas espirituais orientadas por sistemas digitais. Nesse cenário, a solidão se torna mercado: primeiro nos isolam, depois vendem conexões.

Apesar do tom inquietante, Webb também aponta alternativas. Ela sugere que novas formas de trabalho invisíveis — como cuidado, mentoria e produção cultural — sejam valorizadas em uma recalibração do capitalismo, tornando-o funcional em um mundo automatizado. Não se trata de substituir o sistema, mas de reconhecer atividades que sustentam a economia digital.

O papel dos futuristas, como Webb, é justamente esse: ajudar líderes a interpretar transformações e preparar-se para cenários possíveis. São profissionais remunerados por governos, empresas e organizações para oferecer projeções que não se limitam a tendências, mas buscam compreender forças convergentes.

Se este artigo soa inquietante, não é para causar terror, mas para provocar reflexão. O futuro não é uma linha reta de previsões; é um campo de forças em convergência. Cabe a nós, como sociedade, decidir se essas tempestades nos arrastarão ou se aprenderemos a navegar nelas.

Fonte: Jornal O Sul.