Há vida brasileira em Marte, ou quase




Uma estação de pesquisa usada por cientistas para simular possíveis futuras missões de astronautas a Marte é agora o lar da astrobióloga brasileira Rebeca Gonçalves, que está ali isolada com mais quatro pessoas.

A cientista, ligada à Universidade de Wageningen (Holanda), estuda a possibilidade de plantar vegetais terrestres em outros planetas e faz parte da nova tripulação do projeto.

A Mars Desert Research Station (MDRS), instalação que há mais de 20 anos abriga pesquisas para ajudar possíveis futuras missões marcianas, possui equipes rotativas.

A pesquisadora já publicou alguns estudos sobre agricultura interplanetária, mas desta vez ela diz que é diferente.

“Aqui eu também sou parte do experimento, porque eu sou parte da tripulação. O experimento como um todo está calculando o gerenciamento do tempo da tripulação em todas as tarefas da base, incluindo a que eu faço na estufa”, conta.

A ideia da MDRS é abrigar diferentes pesquisas sobre como estabelecer uma base habitada em Marte. A instalação é ligada à fundação Mars Society, que por sua vez é bancada por um clube de celebridades que inclui o bilionário Elon Musk e o ex-astronauta Buzz Aldrin.

O projeto é independente da Nasa, mas já abrigou pesquisas da agência espacial dos EUA. Os monitoramentos da missão atual, que inclui Rebeca, são parte de uma pesquisa comportamental da Nasa.

A brasileira vai fazer ali o que sempre fez como pesquisadora, mas desta vez dentro de um simulacro de colônia marciana. A paisagem local, o deserto do Domo de San Rafael, é um conjunto de morros de sedimento rico em óxidos de ferro, geologicamente similar ao planeta vermelho.

“A gente está num deserto no meio do nada, e é muito, muito parecido com Marte. O centro de controle da missão fica aqui perto, mas a gente não vê eles. Eles ficam atrás daquele morro ali”, diz, apontando a câmera. “Eles só conversam com a gente com um delay de 20 minutos, e durante uma janela de comunicação que abre entre as sete e as nove da noite.”

Rebeca concedeu entrevista por vídeo ao jornal O Globo durante um período de exceção concedido pela comandante da missão, a espanhola Mariló Torres, no segundo dia de trabalhos. Durante a maior parte da missão, a ideia é submeter os pesquisadores à sensação de isolamento com o máximo de realismo possível.

Mariló é uma “astronauta análoga” já experiente, e Rebeca ainda é acompanhada de uma cientista indiana, um engenheiro americano e um jornalista canadense. Cada um tem seu projeto próprio dentro da missão, mas precisa se reportar à comandante e ao centro de controle.

Tomates e rabanetes

Rebeca vai realizar dois experimentos em sua temporada na MDRS. Em um deles vai testar o cultivo de brotos de rabanete dentro de uma estufa usando terra que é uma imitação de solo marciano. A ideia é compará-lo com o plantio por sistema hidropônico, por circulação de água.

Seu outro experimento consiste em plantar nessas mesmas condições sementes de tomate que já viajaram ao espaço. Para isso recebeu da Agência Espacial do Canadá dois pacotes de semente que serão usados ali. A ideia é ver se os tomateiros brotam com saúde mesmo após afetados pela falta de gravidade e pela radiação cósmica.

Todo o processo será documentado com dados comparativos, que devem ser depois analisados com seu colega Wieger Wamelink, na Holanda.

A ideia de realizar a pesquisa numa base simulada é entender como esse tipo de atividade pode ser feita num lugar onde vários recursos são limitados, incluindo a água, a energia e o tempo.

“A gente está imerso aqui, como se fosse mesmo uma tripulação que tem que cuidar de tudo na base”, conta. “A gente tem que cuidar ali do sistema de aquecimento, das bombas de água, das roupas EVA que usamos para atividade externa, tudo.”

Um dos experimentos que a cientista está conduzindo envolve sair da base para coletar amostras de solo do deserto usando um traje simulado de astronauta, com circulação de oxigênio e outros dispositivos.

Alguns equipamentos no MDRS são simulações mais realistas que outros. Os módulos de pesquisa e habitação são bastante parecidos com os vistos em filmes de ficção científica. Os túneis que interconectam essas estruturas, porém, são apenas tubos cobertos de lona branca.

Os túneis e módulos não são pressurizados, com teriam de ser em Marte, mas cada vez que os tripulantes deixam a base para atividade externa, são obrigados a esperar cinco minutos dentro de uma câmara de transição simulada.

Trabalho com diversão

O MDRS é um dos poucos projetos de base análoga em Marte que existem hoje no mundo. Há dois na Polônia, um na Alemanha e até um mais modesto no Brasil, o Mars Habitat, o sertão potiguar. Um outro, que ficava no Havaí, fechou.

“Mas de todas as bases análogas do mundo, a MDRS é a mais fidedigna, e a mais moderna”, conta Rebeca. “Por isso ela é agora a mais procurada pela Nasa, pela Agência Espacial Europeia (ESA) e por outros pesquisadores que querem simular mais fielmente e mais profissionalmente os seus experimentos.”

A perspectiva de uma viagem real a Marte ainda é distante, e por enquanto a Nasa não sabe dizer quando, e se, poderá ser realizada. Rebeca, porém, se diz entusiasmada em produzir parte da ciência que será, eventualmente, necessária para embasar tal missão.

Na simulação, ela diz, não há muita oportunidade para deslumbramento com a situação, porque as atividades consomem o dia todo. “É divertido, mas ao mesmo tempo a gente tem que levar muito a sério”, conta. “Aqui todo mundo trabalha bem concentrado durante o dia. Não é tipo uma festa.” As informações são do jornal O Globo.

Fonte: Jornal O Sul